sábado, 16 de abril de 2011

Domesticando Mulheres

Presenciei ontem um diálogo que me perturbou muito, pois expressa ainda a mentalidade retrógrada de nossa sociedade em relação a mulher. Vou escrever aproximadamente o que aconteceu: caminhava eu com dois amigos quando um deles falou: “olha que absurdo”, rapidamente perguntamos sobre o que se tratava, e, ele respondeu: “a saia que aquela mulher usa, é muito curta, ela não tem nenhum bom senso“  explicou. Enquanto eu procurava a mulher para observar sua saia, o outro logo respondeu: “Há, você ainda se importa com isso? É assim, mesmo, ela só não pode reclamar depois...” Achei estranho e perguntei sobre o que ela não poderia reclamar, ao que prontamente recebi a resposta. Ele se referia a um email que circulou por aí explicando o perfil das mulheres mais propensas a serem violentadas sexualmente, onde dizia que mulheres que “aparentam ser fáceis” seriam mais visadas por esse tipo de criminoso.
Imediatamente pensei, mas é exatamente esse tipo de pensamento que permite que milhares de mulheres sejam agredidas por dia em todo o mundo, essa idéia muito propagada de que a mulher é sempre culpada em crimes sexuais, de que ela provocou, alguns chegam mesmo a falar que ela “pediu” para ser estuprada. Mulheres negras e brancas, mulheres pobres e ricas, mullheres analfabetas e com pós-graduação, sempre mulheres, ainda hoje, em 2010, sendo violentadas por homens conhecidos, desconhecidos, muitas vezes por seus próprios maridos. E muitas dessas mulheres vivem esse sofrimento intenso caladas, com medo, porque a sociedade não as apóia, a sociedade diria, assim como esse meu amigo desavisado, que a culpa da agressão, no fundo, é da mulher.
Historicamente, a humanidade escreveu uma triste história de “domesticação” da mulher, de modo a garantir que ela obedecesse docilmente as vontades de seu pai e depois de seu marido. Para tal, uma série de hábitos e tradições, muitas vezes grotescos e cruéis, foram criados. Uma dessas práticas continua ativa ainda hoje em diversas sociedades: a circuncisão feminina. Os métodos vão desde a retirada do clitóris até, o mais aterrorizador, a retirada também de parte dos pequenos e dos grandes lábios da vulva que posteriormente são costurados de forma rudimentar com algum “instrumento” oferecido pela natureza dos desertos africanos. O que muitos não sabem é que é deixado  um pequeno espaço para que a menina possa urinar e que depois de casada, o marido precisa utilizar uma faca ou navalha para “abrir”, literalmente, a sua esposa. Esse “procedimento” cirúrgico é realizado ao ar livre por “mulheres especiais” que utilizam uma gilete, não esterelizada, como instrumento. As meninas passam pela circuncisão em torno dos 5 anos de idade e nada podem fazer para se defenderem.
Waris Dirie, a ex top model somali que foi mutilada, explica que as meninas que não forem circuncidadas são excluídas de suas sociedades e tratadas como prostitutas. Ela conseguiu fugir de seu país para a Inglaterra e hoje é embaixadora da ONU contra a mutilação feminina. Segundo Waris:
“As coisas estão melhorando, mas não é o suficiente. O que me deixa doente é que os políticos do mundo não levam a questão a sério porque, no fim das contas, é um ‘problema de mulher’, algo relacionado à vagina. Muitos argumentam dizendo que ‘isso é religião’ ou ‘é a cultura dos outros’, quando na verdade é um crime.”
Essa é a questão fundamental para compreendermos porque ainda permitimos tamanha violência contra a mulher: argumentos culturais ou religiosos. É preciso mudar, então, essa “cultura” covarde que afirma coisas do tipo: “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, o que significa, muitas vezes, deixar que o marido bata em sua mulher no meio da rua, muitas vezes ferindo-a mortalmente, sem que ninguém faça nada. É preciso parar de justificar o número escandaloso de estupros que acontecem diariamente colocando a culpa na roupa que a mulher usa, no seu decote, ou na sua beleza.
Esse é o mesmo argumento utilizado em parte dos países muçulmanos para explicar o uso da burca. A burca, afirmam os defensores, seria uma forma de “proteger” a mulher dos olhares masculinos, ora se o problema está no olhar masculino, não se deveria pensar em fazer alguma coisa sobre isso? Parece muito mais fácil domesticar a mulher, “educá-la” desde pequena para que ela não se defenda quando é ferida, para que ela aprenda a sentir dor calada e para que seja dócil e prendada. A mulher é domesticada quando não permitem que ela estude, que ela ande livremente pelas ruas, ou quando impedem que ela escolha o seu marido. Sim, tudo isso ainda acontece hoje, e não só em países distantes daqui, acontece todos os dias em nossos bairros. Claro que os “modos” são diferentes, mais sutis, velados, mas vivemos nós também em uma cultura que ainda diminui a mulher frente ao homem, e é assim, com pequenos comentários, que alimentamos nossa sociedade a seguir desrespeitando as mulheres.

4 comentários:

  1. Um dia eu sei o Mundo há de seguir um caminho melhor quando o Casal grávido iniciar a educação de seus filhos no ventre.
    E como flechas serão lançados e contagiarão o Mundo...Vida após Vida!

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  2. Muito bom o seu blog.Dito e eu gostamos muito. Parabéns!É um grito de alerta para uma sociedade qu se sustenta na dominação sobre mulheres, gays, negros,pobres,miseráveis,"diferentes"...
    Continue com seu grito, a "queima dos sutiãs" na década de 60 foi só um inicio.
    Angela

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  3. Calma Paula, seu amigo apenas quis dizer que mulheres com roupas sensuais chamam mais a atenção de estupradores, mas a culpa do crime continua sendo destes. Uma mulher de saia curta chama a atenção de estupradores da mesma forma que um homem (ou mulher tb) chamaria a atenção de assaltantes se usasse seu laptop no meio da rua.

    Ademais, concordo que as mulheres, principalmente nos lugares menos desenvolvidos, sofrem muito com supremacia historico-cultural masculina. Situação difícil de resolver nas sociedades mais primitivas (religiosas?) e que com certeza necessitam de intervenção internacional.

    Sou blogueiro (de leve) ^^

    Compartilhando ideias chegamos mais perto do ideal social. Continue assim e estimule outras pessoas tb.

    Abçs!

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  4. Ah! Eu sou o Gil da Buarque :D

    Leia meu blog tb se tiver um tempinho:

    http://minhaexperienciamundana.blogspot.com/

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